...numa tal cidade chamada Jales, interior de São Paulo. Hoje com pouco mais de 150mil habitantes. À epoca, quase 30 anos atrás, deveria ter muito menos que isso... principalmente pelo fato de que, assim como eu, muitas pessoas lá nasciam pra nunca mais voltar. Como nasci muito pequena, esperei ailguns dias para receber um nome. Não tinham a certeza de que eu vingaria neste mundo e por isso, resolveram esperar.
A primeira pessoa da família a me ver, com exceção de mãe e pai, foi uma tia de minha mãe, casada com um irmão de minha avó. A vó, esta não estava lá... Eu havia nascido como a personificação de um amor proibido. Meu pai era pobre e sem muitos estudos... Minha mãe, era linda e sonhadora, acreditava no amor, esse amor que move montanhas, ultrapassa barreiras e se faz multiplicar e desta multiplicação, nasci.
De Jales, acho que ainda com os olhos fechados, fui pra um local próximo, de nome engraçado e quase irônico: Pontalinda.
Sinceramente, é difícil acreditar na esperança daqueles 2mil viventes sobre a sonho de transformar toda aquela tristeza que cerca a cidade em algo digno de admiração, de beleza.
Pelo pouco que me lembro, de visitas posteriores, aquilo nunca foi belo. Por quase 3 anos lá eu vivi mas não entendo o motivo, poucas memórias estão registradas. Destas poucas, o cemitério bem na entrada da cidade... acho horrível pois ao invés de um portal de boas-vindas, lá está ele: imóvel, mudo, letárgico... ao entrar na cidade, pequenas vielas, uma rua principal num aclive que chega à Igreja, na praça central. Nesta mesma rua, tinha a venda do meu vô João. Lembro ainda da janela da casa dos meus avós paternos pois era lá que meu avô sempre estava. Ele olhava para os fundos da casa e nunca para a frente... não tive oportunidade de perguntar o porquê. Muitas raízes de uma gigantesca árvore no quintal comprometiam o pequeno casebre, de estruturas a vista, com aranhas em suas teias a nos observar. A vó, essa era linda demais. Magrelinha, sempre de coque no cabelo e seu vestidinho azul, hoje, pareço-me muito com ela. Era só eu aparecer e ela ia direto para o fogão preparar o tal do bijú que eu tanto gosto, até hoje, tantos anos depois... Minha casa, subindo as ruas de terra, era bem próxima. Tinha a casa do Tunicão e da tia Edi. O Tunicão sempre me levava para passear de táxi, eu não lembro disso não, mas sei que ele tinha um pé de sapato meu. Ele o mantinha junto com os sapatinhos dos filhos dele... quando ele partiu, levou os 3.

Um comentário:
Excelente narrativa Dí. O grau de descrição é tão rico quanto de um texto da era realista. Já leu Anarquistas Graças a Deus da Zélia Gattai? (acho escrevi o sobrenome errado) É bem parecida a maneira como ela descreve o mundo a sua volta. Para quem não é esposa do Jorge Amado você merece um Pulitzer.
Bjs Michel
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